O mal-estar na civilização: por que viver em sociedade nos faz sofrer?
- william vinicius de sousa
- 3 de mar.
- 3 min de leitura

Em 1930, Sigmund Freud publica uma de suas obras mais provocativas: O mal-estar na civilização. Nela, o autor se propõe a investigar uma questão que continua extremamente atual: por que, mesmo vivendo em sociedades cada vez mais desenvolvidas, seguimos insatisfeitos?
Freud parte de uma constatação simples e desconfortável: existe um conflito inevitável entre aquilo que desejamos e aquilo que a sociedade exige de nós. É dessa tensão que nasce o mal-estar.
A busca pela felicidade e o limite imposto pela realidade
Segundo Freud, todo ser humano busca a felicidade. Queremos prazer, satisfação, realização — e tentamos evitar o sofrimento a qualquer custo.
O problema é que o mundo não foi organizado para atender aos nossos desejos.
Freud descreve três grandes fontes de sofrimento:
O nosso próprio corpo (que adoece, envelhece e morre);
O mundo externo (com suas forças imprevisíveis);
Os outros seres humanos (fonte constante de conflitos).
Diante disso, aprendemos a moderar nossas expectativas. Surge o chamado princípio de realidade, que nos ensina que nem todo desejo pode ser satisfeito. Em vez de buscar felicidade plena, passamos a nos contentar com a simples ausência de sofrimento.
O preço de viver em sociedade
Para que a civilização exista, é necessário que abramos mão de algo. E esse algo é, principalmente, a satisfação irrestrita dos nossos impulsos.
Freud mostra que a sociedade só se mantém porque impõe regras, normas e limites à agressividade e à sexualidade humanas. Sem essas restrições, a convivência seria impossível.
No entanto, essa renúncia tem um custo psíquico: o sentimento de culpa.
Aquilo que antes era medo de punição externa (dos pais, da autoridade) passa a ser internalizado. Surge o Superego, uma instância psíquica que vigia nossos pensamentos e intenções. Não é mais necessário cometer um ato para sentir culpa — basta desejá-lo.
Para Freud, essa culpa inconsciente é um dos principais pilares do mal-estar contemporâneo.
O conflito entre Eros e destruição
Em sua obra, Freud retoma uma ideia desenvolvida anteriormente: além do impulso de vida (Eros), que busca unir, preservar e criar, existe também um impulso de morte ou destruição.
Essa tendência agressiva pode ser direcionada para fora (na forma de violência contra o outro) ou para dentro (na forma de autocrítica severa, autossabotagem e sofrimento psíquico).
A civilização tenta conter essa agressividade por meio da moral, da lei e da cultura. Mas essa contenção nunca é total — e o conflito permanece ativo dentro de cada sujeito.
Religião, desamparo e o “sentimento oceânico”
Freud também discute a origem da religiosidade. Ele parte da ideia de que o ser humano carrega uma experiência primitiva de desamparo — vivida desde a infância.
A necessidade de proteção, inicialmente dirigida aos pais, especialmente à figura paterna, seria posteriormente deslocada para a ideia de Deus. A religião surgiria, assim, como uma forma de consolo diante da fragilidade humana.
O chamado “sentimento oceânico” — uma sensação de pertencimento ilimitado ao todo — seria um resquício de um estado primitivo do ego, anterior às delimitações claras entre o “eu” e o mundo externo.
A civilização nos torna neuróticos?
Freud encerra sua reflexão com uma pergunta inquietante: será que o próprio processo civilizatório produz uma humanidade estruturalmente neurótica?
Ao reprimir impulsos fundamentais para garantir a convivência coletiva, a sociedade cria indivíduos divididos internamente. Quanto mais avançada a civilização, maior tende a ser o peso das exigências morais e maior o sentimento de culpa.
O mal-estar, portanto, não é um acidente — é estrutural.
Por que esse texto ainda é atual?
Quase um século depois, a obra continua surpreendentemente pertinente. Vivemos sob ideais de produtividade, desempenho, sucesso e felicidade constante. Ao mesmo tempo, convivemos com ansiedade, culpa e sensação de insuficiência.
Freud nos lembra que talvez o sofrimento não seja um erro do sistema — mas parte inevitável da condição humana inserida na cultura.
Ler O mal-estar na civilização não oferece respostas prontas, mas nos convida a refletir sobre nossos próprios conflitos:Entre desejo e regra.Entre prazer e renúncia.Entre liberdade e pertencimento.
E talvez, ao reconhecer esse conflito, possamos lidar com ele de maneira um pouco mais consciente.
William Sousa
CRP: 06/103810




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