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Psicanálise e Cardiologia: os efeitos da escuta analítica das arritmias da alma.

  • Foto do escritor: william vinicius de sousa
    william vinicius de sousa
  • 3 de mar.
  • 2 min de leitura

Este texto nasceu da minha experiência na pós-graduação em Psicologia Hospitalar no Hospital Israelita Albert Einstein, a partir dos atendimentos realizados na cardiologia do Hospital Vila Santa Catarina, em São Paulo.

A proposta foi refletir sobre algo que muitas vezes não aparece nos exames, mas se manifesta intensamente no discurso do paciente: os efeitos subjetivos do adoecimento cardíaco.

As doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de morte no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Mas, para além dos dados estatísticos, existe um sujeito que sofre — e é esse sujeito que me interessa escutar.

O coração além do órgão

Na medicina, o coração é um órgão vital responsável pela circulação sanguínea.Na Psicanálise, o corpo não é apenas biológico — ele é atravessado pela linguagem, pela história e pelo inconsciente.

A partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, compreendemos que o adoecimento pode mobilizar conteúdos inconscientes, reatualizar perdas antigas, despertar angústias profundas e colocar o sujeito frente à própria finitude.

Muitos pacientes relatam:

  • medo da morte

  • sensação de perda de controle

  • revisões intensas da própria história

  • sentimentos de culpa, frustração ou desamparo

Mas cada história é singular. E é justamente aí que a escuta analítica se torna fundamental.

O que a escuta analítica possibilita?

Diferente de uma escuta voltada apenas aos sintomas físicos ou aos perfis de personalidade, a escuta psicanalítica abre espaço para que o paciente associe livremente, fale de si e encontre sentidos próprios para aquilo que vive.

Durante os atendimentos na cardiologia, foi possível observar que:

  • O adoecimento muitas vezes reativa conflitos antigos não elaborados.

  • O medo de procedimentos médicos pode carregar significados que vão além do risco clínico.

  • A internação pode funcionar como um marco de ruptura na vida do sujeito.

  • Perdas afetivas antigas podem ressurgir com força no momento da fragilidade física.

Em dois casos clínicos acompanhados, ficou evidente como o espaço de fala permitiu que conteúdos recalcados emergissem, possibilitando novas simbolizações e algum alívio psíquico — mesmo diante da gravidade da condição médica.

Não é apenas um coração em risco

Quando um paciente é internado por uma condição cardíaca, não está apenas o órgão em jogo. Está em jogo sua história, seus vínculos, suas perdas, suas frustrações e sua relação com o próprio desejo.

A escuta analítica não substitui o tratamento médico — ela o complementa.Ela não trata a artéria, mas pode ajudar o sujeito a encontrar palavras para aquilo que o atravessa.

Ao invés de escutar “o cardiopata”, escutamos o sujeito que sofre.

E, muitas vezes, ao falar do coração biológico, o paciente começa a falar também das arritmias da alma.


Wiliam Sousa

CRP: 06/103819

 
 
 

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